Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que a liberdade seja a nossa própria substância. (Simone de Beauvoir)
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Os outros também te definem
16/06/2017
Você se superou.
Depois de praticamente morrer chorando achando que não encontraria amor próprio, depois de viver um relacionamento abusivo e desgastante, você se superou.
Porque a vida não é determinista.
Ainda bem!
Você percebeu que não é assim que funciona.
As pessoas não podem te usar como bem querem.
Você não merece isso.
Não é lógico uma pessoa dizer "não te quero mais" e depois vir te procurar.
Não é justo com você se permitir que ela te acesse.
Não tem nada a ver com dar o troco, ser rancorosa.
Tem a ver com você lembrar de si mesma. E não permitir que ninguém te machuque.
Você vale muito, e ninguém pode te dizer o contrário.
Hoje, o que você fez, foi falar isso: ninguém vai me machucar!
Ninguém vai brincar com o que eu sinto, com o que eu quero, com o que eu sou.
Parece simples, né?
Mas só a gente sabe como não é.
Só a gente sabe como foi difícil falar não.
Porque o caminho até aqui foi doloroso.
Durante muito tempo, você achou que não era assim que funcionava.
Você se permitia ser deixada de lado.
Você se permitia ser a segunda opção de alguém.
Você entendia que o amor era construído dessa forma.
Afinal, o que você viveu até agora, foi isso.
Amor nada tem a ver com dor.
Se tá doendo, tá errado.
Alguém te amar não significa que você vá acatar tudo o que essa pessoa disser ou fizer.
Não.
E se alguém for assim com você, questione também!
Ninguém merece esse limbo de ostracismo e migalhas.
Amar é liberdade.
Ser livre, e admirar a liberdade do outro.
Baseando-se na confiança, no respeito e na admiração que um nutre pelo outro.
Não aceite absolutamente nada diferente disso.
E sempre, sempre que titubear, venha reler isso.
Parabéns, garota.
Você percebeu que você é muito, pra ser insuficiente pros outros.
terça-feira, 30 de maio de 2017
sábado, 20 de maio de 2017
Para nunca esquecer.
Sou majoritariamente heterossexual, e com isso quero dizer que já me apaixonei por mulheres e sou aberta a envolvimento afetivo com mulheres, porém a maioria esmagadora das vezes que me apaixonei na vida, e a maioria de todas as minhas experiências até hoje foram heterossexuais. Não consegui ainda descobrir até que ponto a socialização feminina e a heterossexualidade compulsória, às quais fui submetida desde o nascimento, influenciaram a vivência da minha sexualidade. Acredito que essa descoberta seja um processo e, nesse ponto do caminho, me identifico como bissexual, majoritariamente heterossexual.
Ser uma mulher negra e feminista em um relacionamento hétero é um misto de incompletude, abuso, inquietação e culpa. É uma prisão que a minha consciência de que todo relacionamento heterossexual será, em algum nível, abusivo não me blinde de me apaixonar por homens. Cada vez mais em relacionamentos heterossexuais eu sou colocada diante de uma verdade dura que eu não queria realmente acreditar: os homens não amam as mulheres.
Não, os homens não nos amam, não são capazes de algo tão grande por nós. Não são capazes de se deixar por nós, de se abandonar, de abandonar seu lugar de privilégios por nós.
A assimetria que eu enxergo nos relacionamentos heterossexuais é perversa: os homens são socializados pra independência, pra manipulação e pro abuso; e as mulheres, pra dependência, pra carência e pro perdão, assim os dois lados se completam em prol da manutenção do domínio masculino. Essa assimetria é cruel porque faz com que as mulheres se deem muito fácil, faz com que perdoem sempre tudo e que sempre carreguem sozinhas o fardo da manutenção do relacionamento. Ao mesmo tempo faz com que os homens ocupem a posição de conformidade, de “errei de novo, mas me desculpa, sou homem, estou tentando”, o homem se sentirá suficiente, sentirá que já está fazendo muito por apenas tentar e nos manipulará todo o tempo para acreditar que nós é que somos muito difíceis e exigentes. Aqui é importante destacar que ele não trabalhará sozinho nessa manipulação, contará com forte e indispensável ajuda da sociedade patriarcal que, à todo tempo naturaliza abusos em nossa cabeça e faz com que sintamos culpa por não aceitá-los.
Cresci, como muitas meninas, envolta em um ambiente familiar em que observei acontecerem muitos relacionamentos abusivos à minha volta, e foi a partir dessa observação dos abusos cotidianos da vida conjugal que hoje eu entendi o lugar que acabei ocupando dentro de relacionamentos abusivos. Cresci vendo minha mãe, minhas tias, vizinhas, perdoando, sempre e sistematicamente se anulando e aceitando abusos em nome da manutenção de um relacionamento que não era bom pra elas, mas quem eram elas sem um homem do lado? Nós temos medo da solidão, e por isso nos submetemos a tudo, porque nos ensinaram que nada pode ser pior que estar sozinha. Para a sociedade patriarcal uma mulher solteira e que distoa, em algum nível, dos padrões impostos de beleza e feminilidade é a materialização do fracasso e da infelicidade. Sim, é essa a resposta: suportamos e mantemos o que não queremos por medo.
Hoje acredito que aprender a lidar com a solidão talvez seja a única ferramenta efetiva contra relacionamentos abusivos. Aprender a ser só não é uma arma com a qual sou capaz de enfrentar o patriarcado de peito aberto e sair ilesa, mas um escudo com o qual posso alterar minha realidade individual. Estar só nos traz consciência, discernimento, traz força e coragem também. Estar só me trouxe o discernimento de quando o relacionamento é bom pra mim, ou não, me trouxe consciência de que a minha solidão não é um fracasso, de que não preciso anular quem eu sou e me submeter a abusos para estar bem comigo mesma. Minha solidão é um processo de resistência à cultura patriarcal de domínio e de abuso masculino sobre meu corpo e minha humanidade.

Eis aí parte da desgraça da feminilidade.
A nossa desgraça é bonita, a gente aprende a confiar e a perdoar muito facilmente e isso é bonito, tudo isso é, na verdade, super bonito. Tudo isso que a gente sente, toda essa nossa capacidade de amar, de se dar é de uma confiança absurda. Nós compartilhamos com os homens a beleza da nossa desgraça e acreditamos que eles podem entendê-la, acolhê-la, que podem nos amar. Nós damos aos homens uma confiança que eles não merecem, e lhes dedicamos um amor de uma grandeza que eles não tem a capacidade de valorizar. Acreditamos, sempre, e de novo, e outra vez, que tudo pode ser diferente, há uma beleza nessa inocência, uma beleza cruel, uma beleza perversa, uma beleza que sangra e que nunca cicatriza.
Uma coisa que eu aprendi é que os meus sentimentos e minha desgraça, nada disso nunca vai estar acima do privilégio masculino. No fim os homens sempre vão agir se priorizando, foi o que eles aprenderam a fazer, e a gente sempre vai agir se secundarizando, é o que a gente aprendeu a fazer. A manipulação masculina se apresentará de formas sutis: frieza, chantagem emocional, silêncio. E, se não estivermos atentas, nosso amor servirá à manutenção do patriarcado, e a manipulação masculina será capaz de inverter o sentimento de culpa sempre pro nosso lado.
O “amor” masculino precisa da nossa obediência, subserviência, da nossa submissão e servidão sexual pra se manter. O “amor” masculino é muito necessitado da nossa objetificação, consequentemente, da nossa desumanização. O “amor” masculino é algo muito despreocupado com o nosso cuidado, com os nossos sentimentos. O “amor” masculino é extremamente volátil e egoísta, é algo capaz de sumir num passe de mágica em nome da manutenção dos próprios privilégios.
E foi nesse processo de vivência de todas as nuances em que pode se apresentar o abuso e a manipulação masculina dentro de relacionamentos heterossexuais, que eu por fim entendi. Entendi que devo matar essa beleza dentro de mim, devo resistir à feminilidade que me foi imposta e me colocar sempre em primeiro lugar. Devo me priorizar, me ouvir, estar atenta aos meus sinais. Devo parar de me preocupar com os homens de uma forma que eles jamais serão capazes de se preocupar comigo. Dentro de um relacionamento heterossexual, devo ser mais egoísta, devo reverter grande parte do meu cuidado com o outro em auto cuidado. Devo ser “complicada” “difícil” e “exigente”, porque tudo isso é por mim.
Um homem que quisesse nos amar deveria entender tudo isso, deverá entender que a assimetria socialmente imposta pede como resposta que tentemos construir, em esfera micropolítica, um relacionamento contrariamente assimétrico. Devemos resistir aos comportamentos padrão de feminilidade e masculinidade para tentar tornar a relação homem-mulher não-sistematicamente abusiva. Os homens deverão sim priorizar sempre o que a gente sente com relação ao que eles fazem, e não sempre jogar de novo nas nossas costas o peso e a responsabilidade de lidarmos sozinhas com as nossas inseguranças.
Isso não é amor, isso é egoísmo , isso é controle e isso é domínio masculino.
terça-feira, 9 de maio de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
sábado, 15 de abril de 2017
E se tudo correr bem, em algum momento, aprende-se: a secar as camisas no cabide, a não se deixar tocar pelas palavras de qualquer pessoa, a colocar um pouco de vinagre na água ao cozinhar ovos, a ouvir o que o outro diz para além do próprio umbigo, a guardar as chaves dentro de um lugar específico na bolsa, a dosar uma boa porção de liberdade ao desejo de fazer dois virarem um no amor. Sutis descobertas que, postas em prática, nos levam a ganhar um bom tempo na vida.
- Ana Suy
segunda-feira, 10 de abril de 2017
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Processando
Pensa uma coisa aqui, outra ali. Coloca como as coisas são. E assim vai sendo...
Mas você sabe que tem algo ali, adormecido, bem quieto.
Você não sabe o que falta, o que incomoda, o que estranha. Tem horas que é uma bosta estar sozinha. Tem horas que tudo está muito fora da ordem. Tem momentos que você está bem, e as coisas seguem bem.
Não faz sentido. É, você não costuma querer sentir nem fazer sentido. Bem no fundo você gostava de ser assim também.
Mas tem algo que te intriga. Tem algo que te inquieta.
Não se sabe como aparece, nem como vai embora.
Não te entende como mexe tanto contigo, essa coisa louca que não tem nome. Essa coisa estranha que te consome.
Tentar compensar com coisas vazias e simplórias. Logo tu, que sempre foi intensa e gosta de viver cada sentimento até o fim.
Beber, foder, rir de coisas banais, seguir no automático sem elaborar o que te faz estar assim.
Já conseguiu entender porque toda essa confusão?
Será que isso uma hora acontecerá?
Será que existe um motivo para isso?
O que te inquieta? O que te incomoda? Pra que tanta pergunta?
Buscar em si a resposta talvez não seja o mais simples. Mas com certeza, será o mais acertado.
Por onde começar, você não sabe.
Mas ficar correndo em círculos já fez você se perder.
segunda-feira, 27 de março de 2017
Machadeando
E com uma letra bem pequena, lá estava escrito no seu epitáfio: tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa vida de expectativas frustradas tentou até amar…
Pois bem, não conseguiu e aqui está.
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DOM CASMURRO | MACHADO DE ASSIS

