Coração sangra.
Tristeza embebeda.
Ao fim, você percebe que o que você passa não é problema dos outros.
Apenas teu.
E a vida fica dolorida, e solitária.
Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que a liberdade seja a nossa própria substância. (Simone de Beauvoir)
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Mas não sorrimos a toa...
Há alguns dias antes de completar meu 24º aniversário me peguei refletindo sobre meu all star, minha camiseta branca com frase bonitinha e meu cabelo amarrado de qualquer jeito em cima da cabeça.
E sobre essa minha despreocupação com a necessidade de atender às expectativas do mundo com relação a mim.
Muitas são as vezes que penso: deveria andar de salto, deveria ser mais delicada, usar blush e parecer mais séria/sensual.
Deveria ter terminado a faculdade de direito. Ter deixado de lado esses ideais e seguido uma carreira que me garantiria um bom rendimento financeiro.
Deveria falar baixo, deixar de falar o que penso, não me importar tanto com os outros, não questionar o sistema político vigente, não dar bola pro mundo além do meu umbigo, usar o carro e poluir todo o ar do mundo, afinal, todos fazem isso.
Deveria me dar por satisfeita com as coisas que tenho, não ficar questionando as coisas que me rodeiam, usar moderadamente o cartão de crédito e poupar dinheiro,
Eu deveria ser aquilo que meus pais esperavam que eu fosse.
Mas ainda bem que não sou assim.
Eu sou toda coração, maluca, falo sem papas na língua, rio alto, me importo com os outros, paro na rua pra perguntar se alguém precisa de ajuda, xingo no trânsito e resmungo da vida.
E como disse uma amiga uma vez: o problema não são os teus defeitos. O problema é você gostar deles.
E eu gosto. Muito.
Hoje, a poucos dias de completar mais um ano vivido, somado de experiências boas, eu me pego orgulhosa.
Orgulhosa de quem me tornei.
Algumas pessoas dirão que é arrogância, prepotência da minha parte.
Não, não entendam assim.
É só amor próprio, que aos poucos fui desenvolvendo, e hoje escancaro.
Descobri que esse sentimento tão famoso é de fato crucial na nossa vida. Você se aceitar. Com todos os defeitos e qualidades. Saber das tuas limitações, mas também saber dos teus pontos fortes, é necessário e fundamental.
Espero que nesse ciclo que logo irá iniciar eu possa aprender cada vez mais me compreender. Porque quando a gente se conhece, se entende e se respeita, a gente cria empatia para fazer isso com os outros.
Hoje em dia consigo ser muito mais complacente com os outros, pois sei que preciso que sejam complacentes comigo.
Fico feliz e orgulhosa em observar minha evolução.
E sei que muitos de vocês que estão se dando ao trabalho de ler esse texto egocêntrico têm parte nesse meu aprendizado.
Hoje, após uma linda gira de boiadeiro, cheguei em casa reflexiva acerca da minha vida, acerca da humildade que precisamos desenvolver e trilhar. E fiquei feliz. Feliz por poder compartilhar esse aprendizado.
Obrigado a todos que me ajudam nesse processo de evolução.
Obrigado a todos que me acompanham e acompanharam ao longo desses 24 anos.
Que passamos juntos aprender cada vez mais.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Concerta!
Há um certo tempo comecei a tomar o remedinho adestrador.
Eu mesma que pedi. Já estava ficando zureta com as duas faculdades, grupo de estudo, projeto social, curso de línguas, vida social assim, tudo ao mesmo tempo.
E... Essa coisa deixa muito pilhada!
Já percebi que nos dias que eu tomo, de fato fico muito ligada. Eu sei, é a função do remédio. Concentração à mil!
To feliz com a produção. Percebo que produzo muito mais análises sobre conteúdos do que antes. E isso eu acho fantástico.
Em contrapartida, eu ainda tenho uma certa dificuldade em focar. Penso, produzo, discuto. Mas não consigo aquietar a bunda e ler. Ok, não me empenhei pra isso ainda, é bem verdade...
Me sinto tão elétrica que em alguns momentos chego a ter medo de ter uma taquicardia.
Mais louca do que o normal, se isso é possível.
sábado, 9 de agosto de 2014
Reflexões de uma sexta feira a noite.
Passeando por um shopping de classe média alta,
observando aquelas vitrines impecáveis. Muitas
luzes, muito glamour, muito perfume bom. Aquelas pessoas bem arrumadas, portando bolsas
caras, smartphones caros, roupas caras, pessoas lindas, que mesmo após uma
semana exaustiva ainda estavam bonitas e bem apresentáveis em um passeio casual
numa sexta feira à noite.
Passando o olho rapidamente por aquelas vitrines, e as
muitas cifras que elas apresentavam, comecei a me questionar sobre essa
sociedade de consumo na qual estamos inseridos e é tão difícil romper. Enquanto
passeava me peguei tendo vontade de comprar inúmeras coisas que eu não precisava.
- Ok, até aí você sabe que isso é a ‘lógica do mercado’, nós precisamos
consumir desenfreada e inconscientemente. Eu realmente admiro como ‘eles’ (não sei bem
ao certo a quem devo denominar de ‘eles’. Mercado? Marketeiros? Sistema Capitalista
Comedor de Criancinhas?) fazem você sentir necessidade daquele produto, e de
como sua vida será infinitamente triste se você não adquiri-lo, mesmo que
ele custe praticamente todo o teu
salário de estagiária.
Acontece que durante a tarde eu tinha participado de um
círculo de pedagogia social, e a discussão que havíamos originado em sala ainda
não tinha cessado na minha cabeça. E eu só conseguia pensar e me indignar com
as muitas realidades que estávamos estudando, e como elas não cabiam ali! Como aquelas
roupas lindas e impecáveis não foram feitas para qualquer um vesti-las. Como aquele
perfume delicioso no ar não podia chegar ao olfato de todo mundo. Porque o
mundo bonito e bem iluminado não é para todos. Ali é só um nicho muito, muito
pequeno que pode adentrar. Alguns nem podem, mas fingem poder porque estar ali
é pertencer a um lugar bom e bonito. E todos querem participar e aparecer,
mesmo que digam o contrário.
Continuei caminhando e observando. Parei para jantar, e
nesse meio tempo uma criança de uns quatro ou cinco anos, trajando um uniforme
bem (y) quisto socialmente (y) chorava e esperneava que não queria sentar na
cadeirinha. Meu ímpeto foi ficar brava com aquela manha (não tenho filhos e não
tenho paciência pra criança mimada. Não me questionem porque estou fazendo
pedagogia, por favor!), então prestei atenção na situação que ocorria: a
criança queria a todo custo deitar no carrinho –que era da McLaren, por óbvio .
Ela estava pedindo praticamente pelo amor de deus pra dormir. O pai tentava
distraí-la com a mão livre, enquanto a outra ele mexia no super smartphone, pra
verificar o feed do facebook (sim, eu prestei bastante atenção no que ele
estava fazendo).
Aquilo me fez ficar mais puta, e refletir mais ainda
sobre essa sociedade malditinha que estamos vivendo. Queria poder fugir do
óbvio e não falar que nos preocupamos apenas com o ter e não com ser. Mas não
consigo. Me vem um turbilhão de perguntas que todos nós conhecemos, mas não nos
importamos verdadeiramente. Ainda com o gancho da pedagogia social e o público a
qual ela é voltada, fiquei me questionando se aquela realidade daquele shopping
era de fato a mais feliz.
Se aquelas pessoas que podiam de fato estar ali
consumindo conseguiam viver felizes e tranquilas sabendo que atravessando a rua
elas encontrariam pessoas que vivem um mês com o preço que elas pagariam em uma
camisa de alguma das muitas lojas de grifes.
Se, e, porque é necessário consumir daquele modo tão
desenfreado?
Será que aquele pai está de fato dando o melhor para a
sua filha? Será que ela precisava de tudo aquilo?
Será que aquela senhora gentil que me atendeu na
lanchonete não se revolta de adentrar todos os dias num mundo tão maravilhoso como
aquele, e não poder ter acesso a ele?
Eu queria muito entender esses questionamentos. De
verdade. Queria poder entender os motivos que fazem o ser humano viver nessa
competição enlouquecida, essa ambição desenfreada. Entender como que as pessoas
não se importam com as outras.
Tenho certeza que surgirão comentários aqui falando ‘eles
trabalharam arduamente para poderem consumir aquelas coisas ofertadas naqueles
valores’. Podem comentar, mas vocês sabem que eu não concordo nem acredito com
esse ponto de vista.
Sinceramente, queria entender como que essas pessoas
conseguem viver em um mundo sem amor ao próximo, sem solidariedade, sem empatia.
Entender em qual momento da vida nos tornamos tão egoístas. Há quem diga que as
pessoas são más por natureza e só pensam em si mesmas, que eu quem sou uma
maluca utópica indignada por ‘pouca’ coisa.
Pode até ser.
Mas pra mim é inconcebível viver numa sociedade que
funciona desse modo.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Felicidade Reinou.
De lá até aqui
Disfarço dois caminhos
Refaço o nó pra nos unir
Disfarço dois caminhos
Refaço o nó pra nos unir
Se a sorte desatar
Remendo no destino
Vontade de encontrar
Remendo no destino
Vontade de encontrar
E ao descobrir quem você é
O amor vem me buscar a pé
O amor vem me buscar a pé
Tem mais de onde vem
Os versos dessa nossa história
Fazem um refém
Os versos dessa nossa história
Fazem um refém
E assim, quando bem quer
Sequestra o nosso amor
E põe de recompensa a fé
De acreditar que é bem melhor
Eu e você, nada ao redor
Sequestra o nosso amor
E põe de recompensa a fé
De acreditar que é bem melhor
Eu e você, nada ao redor
Vai por qualquer estrada caminhar
Que a vida há de encontrar nosso lugar
Me diz quantos passos eu devo seguir
Pra nos fazer feliz
Já não importa onde estou
Se é com você que eu vou
Que a vida há de encontrar nosso lugar
Me diz quantos passos eu devo seguir
Pra nos fazer feliz
Já não importa onde estou
Se é com você que eu vou
Daqui até ali
Meus olhos podem seguir
O que ainda há de vir
Meus olhos podem seguir
O que ainda há de vir
Escrevo na linha da mão
A luz dos dias que virão
A luz dos dias que virão
E até os búzios vão dizer
Eu e você nada a perder
Eu e você nada a perder
Vai por qualquer estrada caminhar
Que a vida há de encontrar nosso lugar
Me diz quantos passos eu devo seguir
Pra nos fazer feliz
Já não importa onde estou
Se é com você
Que a vida há de encontrar nosso lugar
Me diz quantos passos eu devo seguir
Pra nos fazer feliz
Já não importa onde estou
Se é com você
Segue que a vida vai iluminar
Nosso andar
Até o amanhecer
Nosso andar
Até o amanhecer
Nasce de novo como o dia faz
Toda vez
Que eu vejo você
Toda vez
Que eu vejo você
Vem, nosso amor se entrega à paz
De ser mais, sem limite algum
Faz de nós dois um lugar
Um destino pra sempre seguir
E daqui até lá
De ser mais, sem limite algum
Faz de nós dois um lugar
Um destino pra sempre seguir
E daqui até lá
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Platão saberia me responder...
Devido a uma série de acontecimentos hoje, me peguei refletindo: como é difícil se colocar no lugar do outro.
Não to falando só da empatia (aquilo que tanto falta por aí).
Me refiro à dificuldade de compreender efetivamente o que o outro sente.
Porque sentir é muito subjetivo.
O que me magoa, chateia ou fere, pode não fazer sentido pro outro.
Hoje eu fiz o papel do "outro". Que não conseguiu entender o motivo de tamanha chateação.
E então, voltei pra casa com isso matusquelando na cabeça.
Afinal: como saber até onde a pessoa que se sentiu lesada está ou deixa de estar certa?
É difícil valorar.
Porque quando você valora, você coloca tuas percepções. E percepções são subjetivas...
Sim, esse papo ta ficando subjetivo, eu sei.
Mas a preocupação é seria.
Até que ponto eu tenho direito de achar que o outro ta sentindo, ta errado?
Quem sou eu pra achar isso?
Mas ao mesmo tempo, quem é ele pra se ofender com tão pouco? Ou tão muito?
Dirão: precisa usar o bom senso!
Aí respondo : bom senso é subjetivo.
Ok.
A vida é subjetiva. E se formos nos basear em subjetividades e indagações desse tipo, Precisaremos nascer com um diploma de graduação em filosofia.
Mas fica lançada a indagação. Pra reflexão.
Necessitamos de uma resposta pra isso.
Porque muitas relações são - e serão- desgastadas por conta de pequenos infortúnios, tipo os que eu vivenciei hoje.
E não há motivo pra isso.
Basta uma tentativa válida de esclarecimento entre as partes.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Aquela pieguice que todo mundo sabe
Não sabia que era possível ser tão feliz dessa maneira.
A vida fica mais fácil de levar.
Os nós desatam com naturalidade.
Aqueles problemas chatos e gigantes nem parecem tão grandes assim.
Eu sei, a paixão faz isso.
Mas o que me surpreende mais é que nosso sentimento é maduro.
Lógico que existe aquela euforia, o frio na barriga.
Mas ao mesmo tempo, existe uma serenidade tão gostosa, que me deixa segura, tranquila.
Me sinto bem, amada, parece que não são dois meses e sim anos e anos.
O tempo passa de maneira natural. Ficamos horas juntos, mas não enjoo de você.
As coisas acontecem espontaneamente.
E ficar longe é tão ruim.
Me pego fazendo planos.
Quero viajar, quero ir a restaurantes, quero ter tardes no parque, quero sorrisos, abraços, beijos e amor. Muito amor.
Planejo uma vida ao teu lado.
Uma casa, gatos, Maria Flor, tudo assim bem misturado. Parecendo enlouquecedor.
Mas contigo do lado, não tem problema que perdure.
Fica meio piegas isso.
Não tem problema. Eu descobri que o amor é piegas. É batido.
Mas é fundamental.
A vida fica mais fácil de levar.
Os nós desatam com naturalidade.
Aqueles problemas chatos e gigantes nem parecem tão grandes assim.
Eu sei, a paixão faz isso.
Mas o que me surpreende mais é que nosso sentimento é maduro.
Lógico que existe aquela euforia, o frio na barriga.
Mas ao mesmo tempo, existe uma serenidade tão gostosa, que me deixa segura, tranquila.
Me sinto bem, amada, parece que não são dois meses e sim anos e anos.
O tempo passa de maneira natural. Ficamos horas juntos, mas não enjoo de você.
As coisas acontecem espontaneamente.
E ficar longe é tão ruim.
Me pego fazendo planos.
Quero viajar, quero ir a restaurantes, quero ter tardes no parque, quero sorrisos, abraços, beijos e amor. Muito amor.
Planejo uma vida ao teu lado.
Uma casa, gatos, Maria Flor, tudo assim bem misturado. Parecendo enlouquecedor.
Mas contigo do lado, não tem problema que perdure.
Fica meio piegas isso.
Não tem problema. Eu descobri que o amor é piegas. É batido.
Mas é fundamental.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Dama da Noite
"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?
Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me dil que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.
Pego, claro que eu pego. Pego sim, pego depois. É grande? Gosto de grande, bem grosso. Agora não. Agora quercì falar na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dei anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein? Depois, até posso. Tem problema, não. Mas não é disso que estou falando agora, meu bem.
Você não gosta? Ah, não me diga, garotinho. Mas se eu pago a bebida, eu digo o que eu quiser, entendeu? Eu digo meu-bem assim desse jeito, do jeito que eu bem entender. Digo e repito: meu-bem-meu-bem-meu-bem. Pego no seu queixo a hora que eu quiser também, enquanto digo e repito e redigo meu-bem-meu-bem. Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Pelo amor de Deus, não me venha com aquela história tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Boiçucanga, tive que dormir na mesma cama com um carinha que. Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Ascendente Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.
Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.
A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.
Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê. Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente. Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela - você?
Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados. Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado.
Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte...
Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto. Um caralhinho gostoso, sem marca nenhuma. Todo rosadinho. E burro. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro, uma tábua, tem tesão por tudo, até por fechadura. Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy.
Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira. Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?
Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra caindo outra vez nessa armadilha de sexo.
Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros ecmo você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.
Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."
Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me dil que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.
Pego, claro que eu pego. Pego sim, pego depois. É grande? Gosto de grande, bem grosso. Agora não. Agora quercì falar na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dei anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein? Depois, até posso. Tem problema, não. Mas não é disso que estou falando agora, meu bem.
Você não gosta? Ah, não me diga, garotinho. Mas se eu pago a bebida, eu digo o que eu quiser, entendeu? Eu digo meu-bem assim desse jeito, do jeito que eu bem entender. Digo e repito: meu-bem-meu-bem-meu-bem. Pego no seu queixo a hora que eu quiser também, enquanto digo e repito e redigo meu-bem-meu-bem. Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Pelo amor de Deus, não me venha com aquela história tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Boiçucanga, tive que dormir na mesma cama com um carinha que. Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Ascendente Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.
Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.
A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.
Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê. Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente. Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela - você?
Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados. Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado.
Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte...
Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto. Um caralhinho gostoso, sem marca nenhuma. Todo rosadinho. E burro. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro, uma tábua, tem tesão por tudo, até por fechadura. Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy.
Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira. Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?
Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra caindo outra vez nessa armadilha de sexo.
Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros ecmo você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.
Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."
Caio Fernando Abreu
segunda-feira, 23 de junho de 2014
672 horas.
Os dias passam voando. Nem parece que você já está há um mês na minha vida.
Hoje você me falou "amor, há um mês atrás vivíamos sem nos termos em nossas vidas". E eu te perguntei "como conseguíamos isso?".
Porque é meio maluco isso, mas, eu já não to sabendo como não ter você comigo todos os dias.
É um bem querer tão grande, que chega ser até inexplicável.
Só sei que esse mês foi incrível. Você foi absolutamente muito mais do que eu um dia imaginei.
E eu realmente espero que esse sentimento lindo floresça cada vez mais, e dê muitos frutos.
Você me faz a mulher mais feliz do universo.
Obrigads por tudo.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
E os dois se encontravam todo dia, e a vontade crescia, como tinha de ser...
Ela gostava de filmes artes, cafés e chás, histórias bonitas e bandas estranhamente melodramáticas.
Ele gostava de filmes da marvel, tomava sucos, conteúdos simples e idolatrava legião.
Ela era inconseqüente, não dava bola pra nada, fumava cigarros e ria da vida.
Ele era caxias, cumpria horários, se preocupava com a saúde e andava sempre sério.
Ela era briguenta, invocava com tudo, resmungava da própria sombra.
Ele era pacífico, ponderava antes de agir, dirigia precavido.
Ela era de esquerda, feminista, debochava dos coxinhas e falava alto.
Ele não votava no Pt, gostava de pagar as contas, falava baixo e não chamava a atenção dos outros.
Ela era impetuosa, fazia o que tinha vontade.
Ele era genioso, não se submetia às vontades dela.
Ela era metida a brava, mas entregava cartoezinhos fofos e tirava fotos bonitinhas com o celular dele pra ele guardar de recordação.
Ele mimava ela enchendo-a de presentes, abrindo a porta do carro e cobrindo-a de beijos.
Ela era mais nova, se achava dona da razão e era impaciente.
Ele tinha 36, falava com firmeza e tinha paciência com a juventude dela.
Ela não acreditava mais no amor.
Ele provou pra ela que ela estava errada.
Ele brigava com ela pela impontualidade, pegava no pé pra que ela não esquecesse da dieta e deixasse de fumar.
Ela ria da chatice dele, achava um charme a cara de bravo e deixava ele falar.
Ele dormia cedo, ficava mal humorado quando estava com fome.
Ela não tinha horários, mandava mensagem de madrugada e ficava brava quando ele não respondia.
Ele sorria frouxo sempre que ela entrava em seu carro e corria lhe beijar.
Ela fingia ser turrona mas seu coração palpitava toda vez que seu celular avisava a chegada de uma nova mensagem dele.
Ele era filho de Oxóssi, vivia dizendo que quem mandava era ele.
Ela era filha de Iemanjá e deixava que ele pensasse que realmente quem mandava era ele.
Ele era o amor da vida dela.
Ela tinha a felicidade de volta em seus dias.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Tum tum.
Duas semanas.
E muito turbilhão.
Confesso que depois da recente e intensa experiência que eu passei, achei que não seria tão logo que eu me apaixonaria por alguém.
Ainda bem que eu estava errada.
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